T
Texto
Jhonyson Nobre, em texto curatorial para a exposição A coisa ficou preta.
O trabalho de Gleyson Borges se constrói através da reorganização de imagens existentes. Em vez de buscar o inédito, reposiciona o que já existe, coletando fragmentos visuais e materiais cotidianos e os rearticulando para construir afirmações sobre o modo como o racismo e as heranças coloniais estruturam nosso olhar. Ao juntar imagens e deslocá-las de seus lugares habituais, destaca, na superfície, novas leituras para aquilo que, de tão naturalizado, parecia impossível de ser questionado.
A sua pesquisa, então, se sustenta em fazer enxergar aquilo que se tornou “invisível” por ser óbvio demais para ser percebido. Seus lambes, intervenções e instalações partem de elementos reconhecíveis (fotografias, recortes impressos, objetos simples) para revelar as minúcias que existem na tecnologia apresentada pelo racismo.
Nesse sentido, não busca traduzir apenas sua experiência enquanto pessoa negra, mas, em seu desassossego, arquiteta caminhos com esses materiais, produzindo afirmações que questionam a forma coletiva pela qual certos corpos foram enquadrados, transformando o espaço da exposição em um lugar de reflexão.
O foco não está na revelação de algo oculto, mas no reposicionamento de imagens já disponíveis, movimentando para o centro aquilo que é colocado à margem e etiquetado de inexistente. É nesse movimento que a exposição propõe um exercício crítico: reconhecer que o que parece natural é, muitas vezes, produto de uma camada espessa de violência, junto do controle da narrativa, alimentado por séculos de exploração contínua e deliberada
A exposição “a coisa ficou preta” nos lembra que toda imagem carrega em si um modo de ver o mundo; toda imagem é intencional. Assim, ocupar a casa grande de um antigo engenho, espaço historicamente dedicado à produção de poder da branquitude e à exploração sistemática dos corpos negros, faz com que a população negra tome as rédeas da narrativa, mostrando que o que parecia distante ainda se faz presente.
Esse espaço, carregado de uma memória de brutalidade, ressoa de outro modo quando atravessado pelas obras de um artista negro. Ao ocupar esse território com uma exposição que desmonta o “natural” hediondo do racismo, Gleyson Borges evidencia que as estruturas que sustentaram o engenho não desapareceram do Brasil, apenas ganharam novos nomes.
Jhonyson Nobre
Curador

Back to Top