Textos
Deri Andrade, em carta de recomendação para a chamada aberta de residência artística do Studio Museum in Harlem (2026)​​​​​​​
Ao Studio Museum in Harlem,
Tenho o prazer de recomendar Gleyson Borges para a residência artística do Studio Museum in Harlem.
Tive a oportunidade de acompanhar a trajetória de Borges durante a itinerância da exposição “Encruzilhadas da Arte Afro-brasileira”, da qual fui curador, um grande projeto que percorreu diversas cidades do Brasil, apresentando mais de 60 artistas de todas as regiões do país, de diferentes períodos e com diversas poéticas, com foco na produção de autoria negra.
Borges demonstra um olhar profundo sobre racismo e representatividade negra em sua prática, revelando uma poética com originalidade, capacidade de pesquisa, engajamento social e político por meio da prática do lambe-lambe, um importante tipo de suporte que pode ser visto pelas cidades brasileiras. Sua produção se destaca por ressaltar esses temas centrais para as questões étnico-raciais no Brasil, mas com um olhar contemporânea para essas profundas discussões no mundo, em países como os EUA.
Além da sua pesquisa, ressalto sua postura ética, comprometimento e capacidade de trabalhar em colaboração, qualidades que tornam sua presença enriquecedora em qualquer contexto coletivo ou institucional.
Acredito firmemente no potencial de Borges para contribuir de maneira significativa na residência artística do Studio Museum in Harlem, trazendo inovação e sensibilidade para o ambiente artístico e cultural.
Deri Andrade
Curador e pesquisador
✶ ✶ ✶
​​​​​​​Jhonyson Nobre, em texto curatorial para a exposição A coisa ficou preta (2025)​​​​​​​
O trabalho de Gleyson Borges se constrói através da reorganização de imagens existentes. Em vez de buscar o inédito, reposiciona o que já existe, coletando fragmentos visuais e materiais cotidianos e os rearticulando para construir afirmações sobre o modo como o racismo e as heranças coloniais estruturam nosso olhar. Ao juntar imagens e deslocá-las de seus lugares habituais, destaca, na superfície, novas leituras para aquilo que, de tão naturalizado, parecia impossível de ser questionado.
A sua pesquisa, então, se sustenta em fazer enxergar aquilo que se tornou “invisível” por ser óbvio demais para ser percebido. Seus lambes, intervenções e instalações partem de elementos reconhecíveis (fotografias, recortes impressos, objetos simples) para revelar as minúcias que existem na tecnologia apresentada pelo racismo.
Nesse sentido, não busca traduzir apenas sua experiência enquanto pessoa negra, mas, em seu desassossego, arquiteta caminhos com esses materiais, produzindo afirmações que questionam a forma coletiva pela qual certos corpos foram enquadrados, transformando o espaço da exposição em um lugar de reflexão.
O foco não está na revelação de algo oculto, mas no reposicionamento de imagens já disponíveis, movimentando para o centro aquilo que é colocado à margem e etiquetado de inexistente. É nesse movimento que a exposição propõe um exercício crítico: reconhecer que o que parece natural é, muitas vezes, produto de uma camada espessa de violência, junto do controle da narrativa, alimentado por séculos de exploração contínua e deliberada.
A exposição “a coisa ficou preta” nos lembra que toda imagem carrega em si um modo de ver o mundo; toda imagem é intencional. Assim, ocupar a casa grande de um antigo engenho, espaço historicamente dedicado à produção de poder da branquitude e à exploração sistemática dos corpos negros, faz com que a população negra tome as rédeas da narrativa, mostrando que o que parecia distante ainda se faz presente.
Esse espaço, carregado de uma memória de brutalidade, ressoa de outro modo quando atravessado pelas obras de um artista negro. Ao ocupar esse território com uma exposição que desmonta o “natural” hediondo do racismo, Gleyson Borges evidencia que as estruturas que sustentaram o engenho não desapareceram do Brasil, apenas ganharam novos nomes.
Jhonyson Nobre
Curador e artista visual
Back to Top